MICHAEL JACKSON : O HOMEM ALÉM DO MITO, SUA HISTÓRIA E O FIM DE UMA ERA
3 anos sem Michael Jackson uma homenagem da Coordenadora Executiva do Jacaré Solteiro Taionara Araújo e Tony Carvalho.
As exéquias feitas na forma de um show visto por milhões de pessoas no mundo todo, dão ao grande espetáculo seu último suspiro. Além de fazer pensar sobre os rumos da música e da cultura na atualidade, a morte do meu ídolo oferece preciosa oportunidade de reflexão sobre o mundo da música gravada, que está sob profunda transformação.
A trajetória do artista, que ostentou os maiores índices conhecidos de vendas de discos, estabeleceu fina sintonia com a forma clássica de atuação das grandes gravadoras. Tanto o auge como o descenso de sua carreira coincidem, em larga medida, com o apogeu e o declínio de um específico modelo de negócios da música.
Da perspectiva do “ business “, desde cedo, Michael Jackson surgiu como um artista completo – a matéria-prima fundamental : intérprete ímpar, exímio dançarino e compositor, com presença de palco, carisma, dedicação e diálogo com diferentes tradições culturais americanas, dos padrões holywoodianos à essência da cultura negra local.
Se com o Jackson Five, seu grupo de origem, traduzia o espírito da gravadora Motown, à qual se integrou em 1968, foi na CBS que sua carreira solo se expandiu, via selo EPIC – por mais que tenha feito discos solo de sucesso na Motown.
Vale lembrar que data dos anos 60 a intensificação dos processos de fusão de grandes empresas da área do entretenimento, fazendo surgir as “ majors “ da música ( EMI -ODEON, POLYGRAM – UNIVERSAL, RCA – BMG, CBS – SONY e WARNER ), que concentrariam a atividade dessa área de negócios não somente nessa época mas por todo o século 20.
Fez parte desse processo a incorporação, pelas grandes, de pequenos selos ou de nomes por ele revelados.
A transferência dos Jacksons para a CBS se deu em 1975, e o primeiro álbum solo de Michael nessa gravadora veio em 1979, “ Off The Wall “, já como resultado da parceria com o produtor musical Quincy Jones.
Na atividade do produtor musical encontramos outra marca dos discos feitos pelas grandes gravadoras. O conhecimento específicos das várias áreas envolvidas o posicionava estrategicamente na fronteira entre a arte e a economia, entre música e o “ business “. Quincy traduzia de maneira exemplar tais atributos.
Por suas mãos, Michael teve acesso aos mais requintados recursos técnicos e musicais disponíveis no mundo, bem como ao exercício de uma criação artística que se expandia para além dos padrões estéticos da indústria cultural.
É o caso dos videoclipes, que, depois dele, transcenderam o perfil original de produto promocional do disco/artista. Nessa vereda é que são realizados os álbuns “ Thriller “ ( 1982 ) e “ Bad “ ( 1987 ), as maiores cifras de vendas já alcançadas na história da indústria fonográfica mundial.
No estatuto de ídolo, de referência musical da cultura pop, Jackson conseguiu ainda o feito de conjugar duas estratégias distintas das “ majors “ : um “ cast “ de artistas que vendem discos em quantidade regular, mas por muito tempo ( a mais lucrativa – os “ artistas de catálogo “ ), e outro com discos que vendem muito, mas por pouco tempo ( “ os artistas de sucesso “ ).
Ao ter permanecido por dois anos ( 1983 e 1984 ) liderando a lista de discos mais vendidos, “ Thriller “ sinteticamente fez essa conjunção, e Jackson passou a simbolizar o modelo ideal de artista a receber a atenção especial de grandes gravadoras, mesmo que fossem em menores proporções.
O disco seguinte, “ Dangerous “ ( 1991 ), além de não ter repetido o sucesso dos anteriores, não contou com o trabalho de Quincy Jones. Michael passou a se dedicar de maneira desigual à sua carreira profissional, perdendo progressivamente o vigor.
No início dos anos 90, a indústria fonográfica se dedicava à inserção do CD no mercado e à transposição de parte de seu catálogo para o novo suporte tecnológico. Essa estratégia trouxe o último grande impulso de acumulação, na medida em que tais reedições foram feitas com custo de produção musical amortizado, gerando um produto mais caro que o disco de vinil. O mercado mundial passou de US$ 12 bilhões de faturamento em 1985 para U$ 40 bilhões em 1995.
Mas a alegria durou pouco. A fluidez da tecnologia digital fez com que a difusão dos produtos escapasse ao controle das gravadoras. Os procedimentos considerados ilegais – primeiro de vendas e, mais tarde de compartilhamento de músicas no formato digital – inverteram radicalmente a curva do lucro num espaço de tempo muito curto. Em 2000, as cifras mundiais de faturamento estavam em torno de U$ 37 bilhões. Em 2005, em U$ 33 bilhões.
Também sustentaram a queda a incapacidade de inovar artisticamente e de assimilar as transformações tecnológicas, em vez de lhes declarar guerra, bem como o descaso com o público, que, ao lado do artista, deveria compor a essência do sistema.
Para retomar o ritmo do negócio, nem mesmo um Michael Jackson bastaria. O aumento nas vendas de seus discos após o seu óbito não altera o panorama. Antes, revela mais uma marca do que o business.
Desse grande cenário, permanecem as heranças artísticas, os desafios postos pelos direitos autorais, a música e os artistas, pois estes não morrem jamais !!!!
A verdade nua e crua é que perdi meu grande ídolo, e foi no Pelourinho em fevereiro de 1996, que pude trocar algumas palavras com ele e ver sua inigualável e impagável performance ao vivo e a cores, em suas históricas ladeiras, graças ao meu ex-colega de faculdade, Dr. João Jorge, eterno presidente do adorado Olodum e Wanda Chase, então assessora e coordenadora da mesma entidade.
Tony Carvalho – Advogado, Articulista, Poeta, Estrategista, Professor, Músico, Produtor e Agitador Cultural
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